sábado, 24 de setembro de 2011

"Vais ao divórcio di Hiroqui?"

Olá Cambada,
 
Deixo-vos com um texto do meu blog pessoal mas que gostaria de partilhar com vocês.
 
«Este é um título de um artigo que podemos encontrar na revista Sábado desta semana (nº386). Achei muito interessante a perspectiva deste artigo, pois tentava explicar esta nova prática com algum senso de humor, mas sem cair no ridículo. Talvez, porque o autor se tenha apercebido que até tem a sua lógica.
A palavra Hiroki significa alegria da prosperidade e da abundância .
Num mundo cada vez mais dominado por emoções (negativas) deixa-mo-nos influenciar muito por tudo o que nos acontece, muitas vezes não conseguindo superar certas perdas, desilusões, obstáculos. Acabámos por nos fechar em casulos, tentamos criar uma cápsula que nos possa proteger do mal, das nossas próprias ilusões. Enclausurados, não vivemos, sobrevivemos. Fingimos que até estamos a seguir em frente, mas na verdade apenas estamos a tentar enganar o nosso subconsciente. Queremos convencer-nos de que conseguimos mas o nosso psicológico prega-nos partidas e em vez de avançarmos, caminhamos largos passos para trás. 
Quando se acaba uma relação, há sempre alguém mais magoado que outro, há sempre aquele que ficou a perder mais do que outro, há sempre aquele que ainda amava. Porém, isso não faz com que seja mais fácil para um do que para o outro. Há também a força e a coragem de tomar a iniciativa de terminar algo que apenas trazia infelicidade. Nem sempre se sabe se é a coisa mais acertada ou não. A dúvida persiste durante muito tempo. Para quem se sente mais injustiçado a mágoa pode corroer a alma e não nos deixa estar prontos para entrar num mundo diferente. Fechamos todas as portas que encontramos entreabertas, pois temos medo de ver o que está dentro da salinha. No entanto, estamos sempre curiosos e desejosos por abrir a porta que se fechou atrás de nós, que está completamente inquebrável e dificilmente a iremos derrubar. Mas continuamos a olhar e a investigar à procura de uma frincha, de algo para que a possamos abrir. 
É neste contexto que eu concordo com esta nova prática. 
O ritual consiste em celebrar o divórcio, marcar o fim de um capítulo das nossas vidas, destruir a alianças com um martelo e tentar encontrar paz de espírito com a nossa nova vida. A "martelada é feita com um martelo que tem a representação de um sapo, que representa significa "retorno". O casal tem preocupações na roupa, nas flores (símbolo da amizade) e nas mensagens que deixam após quebrar a aliança. O objectivo é mentalizar-se que algo acabou e que podemos virar a página. Mais uma vez é algo psicológico. Algo que pode parecer inútil, banal e de uma parvoíce total, mas para mim faz todo o sentido. Acaba por ser uma auto-ajuda para se aceitar algo.
Falemos agora de números: 
  • A cerimónia custa 453€;
  • Desde Março já receberam 200 pedidos para o divórcio;
  • Desde que abriram em 2009 já realizaram 100 cerimónias;
  • Geralmente as cerimónias têm cerca de 20 convidados.
Os tempos mudam e as nossas prioridades também. Não temos de ser submissos a ninguém, nem ter uma vida infeliz, apenas porque o tradicional diz que o casamento é para a vida inteira. Há que ter força para mudar de vida, para lutar pela nossa felicidade. Porque não tornar tudo um pouco mais fácil, com uma cerimónia que simboliza um novo começo?»
 
Um bem haja, 
Sílvia

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Uma experiência a repetir...

Olá Cambada, 
Após algum tempo de ausência, eis que volto para vos contar a minha última experiência: Queda Livre. Foi algo fantástico e eu nunca pensei ter a coragem para fazer tal coisa. 
Tudo começou porque eu comentei com as minhas amigas que um dia gostaria de andar de balão. Elas disseram que também gostavam, mas que preferiam algo com mais adrenalina. Um dia, enquanto eu estava a trabalhar, elas decidiram ir a uma lojinha da "Vida é Bela" e encontraram um pack de Queda-Livre. Telefonaram-me para me dizer o preço e se eu alinhava numa ou noutra altura. Eu, sem perceber muito o que estavam a dizer, respondi-lhes: "Eu confio em vocês, por isso comprem o que acharem melhor". E foi assim que compraram um pacote para fazer Queda Livre a 4200 metros de altura. 
Penso que nenhuma de nós tomou realmente consciência do salto que iria fazer. Só alguns dias antes é que começamos a ficar ligeiramente ansiosas, especialmente, depois de alguns relatos de amigos que já tinham saltado. Eu, confesso, comecei a entrar em pânico no dia anterior. Achei mesmo que não iria ser capaz de me lançar de um avião. 
Dia 31 de Julho, às 8h00 da manhã já estávamos a caminho de Figueira dos Cavaleiros. As minhas amigas, Cristina e Ângela, gozavam com a minha cara de pânico. Chegámos ao local e os nervos apoderaram-se do meu corpo. A casa de banho naquele momento tornou-se a minha melhor amiga.
Desde o momento em que chegámos até ao salto passou uma hora e meia. Tivemos um briefing, equiparam-nos, prepraram-nos, tirámos fotos e preparámos o nosso estômago para o que aí vinha.
O meu instrutor era o Hélder, do norte, que me deu certa confiança, pois era o professor da escola. Mesmo assim eu estava cheia de medo. Com mais medo fiquei quando a porta da avionete onde íamos se abriu e os primeiros dois saltaram. Eu apenas os vi a desaparecerem. Assustador. Foi a vez da Cristina. Ouvi um salto e depois ela desapareceu. Avisei o meu instrutor que quando estou muito nervosa e assustada digo muitas asneiras e grito muito, mas mesmo muito. Aproximámo-nos da porta, o pânico tomou conta de mim. Tentei não olhar para o chão, embora fosse difícil resistir àquela tentação. Quando dei por mim, já estava a cair no vazio. De braços bem abertos e pernas levantadas para trás, a posição banana, temos uma sensação de liberdade, vemos tudo ao longe pequeno, o vento parece que quer arrancar-nos a pele. Às vezes, tinha dificuldade em respirar e a queda livre é mesmo a grande velocidade. Eu aproveitei cada momento dessa queda livre. De cada vez que o Hélder virava à esquerda ou à direita o meu estômago encolhia-se. Após um minuto, abre-se o pára-quedas e sentimos um grande puxão para cima. A velocidade acaba, a adrenalina diminui e aprecia-se a paisagem e a tranquilidade dos céus. O Hélder deixou-me tomar as "rédeas" do pára-quedas e assim tive um pequeno prazer que me deixou viciada. Aterrámos, fui ter com as minhas amigas e estávamos todas radiantes com o salto. Quem sofreu mais até foi o meu instrutor que me disse que eu gritava muito e que tinha uns bons pulmões! É verdade! Eu gritei mesmo muito! 
É difícil de pôr por palavras toda a sensação de um salto. Só mesmo tendo essa experiência. Todos me dizem que eu tive muita coragem. Hoje, pensando bem, não tive assim tanta coragem. Deixei-me levar pelas minhas amigas e, no fundo, quem tem a coragem é o instrutor que te leva. Não tive de ter iniciativa nenhuma, caso contrário acho que nunca tinha saltado. Por isso se tiverem a oportunidade não deixem de saltar. 
Há que viver a vida na sua plenitude, ter estas experiências enquanto somos jovens e os nossos corações aguentem assim tanta emoção. 
Pontos negativos desta experiência: 
  • O preço (ainda é caro);
  • Ficámos um pouco "abananados" depois do salto e apenas queremos saltar outra vez; 
  • Um certa dor nos ouvidos (a minha foi bastante grande que se prolongou por algumas horas);
  • O corpo vicia-se na adrenalina. 
A escola onde fiz situava-se perto de Beja, mas sei que há uma na Maia, Folgosa., 

Uma experiência que recomendo!

Beijinhos,

Sílvia

quarta-feira, 16 de março de 2011

Jardim das Delícias do século XXI

Olá Cambada,

Após a descrição do quadro de Hieronymus Bosch, "O jardim das delícias", pus-me a reflectir sobre o progresso da nossa mentalidade e o modo em como interpretamos as coisas. No século XVI, a dita pintura terá causado uma grande polémica por todas as cenas obscenas retratadas: os prazeres carnais, animais fantásticos e diabólicos, o inferno na terra. 
Hoje, olhando para o mesmo quadro e tentando adaptá-lo à nossa realidade, talvez o que haja demais obsceno será a representação de Adão e Eva, num paraíso perfeito. Um episódio que conhecemos da Biblia, que tantos o refutam, outros duvidam e muitos o tomam como metáfora. A ciência mostrou-nos a incredibilidade de tais afirmações religiosas e pensar em seres puros, num mundo perfeito, calmo e paradisíaco, é simplesmente ilusório. Não existe sítio ou pessoas assim, e já se perdeu a ideia de que poderá existir um jardim do Éden em outra dimensão (excluindo as pessoas verdadeiramente crentes). 
Já o painel central não é tão chocante. Hoje basta olhar para uma esquina e vemos cenas que nos deixam  indignados. A sexualidade está tão banalizada que o prazer sexual já é visto como algo essencial ao ser humano. É certo que a Igreja Católica ainda hoje condena o prazer sexual, mas conhecem algum cristão que não o faça?! Nem os padres, quanto mais... E os seres fantásticos? Não os podemos comparar aos animais que nascem com deficiências, ou deformações genéticas? Quem já não viu fotos de animais completamente diabólicas? Ainda há dias saiu nas notícias que nasceu uma tartaruga com duas cabeças e cinco patas. 
O Inferno do terceiro e último painel descreve o nosso mundo actual. O incêndio que destrói a cidade é uma alegoria a todas as catástrofes naturais que temos sofrido ultimamente: incêndios, inundações, tsunamis, terramotos, como se a própria Terra estivesse a punir o Homem pecador. Os seres diabólicos personificam as atrocidades que o ser humano comete contra o próximo e contra si próprio. São imensas as notícias de pais que matam, violentam e torturam os filhos e vice-versa. O ser humano já não sabe distinguir o errado do correcto, o bem do mal e saem disparando contra tudo e contra todos, em todas as direcções, chamando a morte e a tragédia a cada esquina.
Estará assim tão desactualizado o quadro? A resposta será sempre não, se virmos sobre a perspectiva religiosa, mas deixemos de lado as nossa crenças. Tentem ler o quadro como se fosse uma interpretação do mundo actual...não encontram semelhanças? 
Para ser um pouco louca, quase poderia dizer que Bosch foi também um profeta ao representar a nudez e os seres deformados que vemos todos os dias passeando nas ruas deste nosso planeta. Os pecados quase viraram virtudes, e as virtudes existem apenas em quem ainda está no ventre da mãe. Pessimista? Sim, um pouco. O ser humano desilude-me a cada dia que passa.

Tenho dito.

terça-feira, 15 de março de 2011

O Jardim das delícias de Hieronymos Bosch

Olá Cambada,

Hoje venho falar-vos de um quadro que vi no Museu de Prado, em Madrid. Fiquei completamente fascinada pela composição deste tríptico. trata-se de um quadro dos inícios do século XVI e revela uma enorme criatividade e coragem de um pintor, ao pintar vários quadros abordando temas religiosos, mas representando seres fantásticos, a nudez humana e faz alusão aos prazeres carnais. são vários os quadros onde poderemos ver essa nudez: "as tentações de Santo antão"; "O Juízo Final", mas, na minha opinião, o melhor é este. 
O tríptico começa por apresentar a criação de Adão e Eva, pintando-os com uma brancura que reflecte a oureza do casal. Todo o jardim retrata o paraíso: a calmaria da natureza, beleza e a sempre presente tranquilidade. Porém, há vários pronúncios do pecado, que deixam adivinhar a composição seguinte. De facto, vemos alguns animais estranhos, a corugem (símbolo do infortúnio) e certas rochas que revelam perfis humanos. No entanto, mantem-se fiel ao teor religioso, representando a árvore do pecado original, onde se vê inclusivé uma serpente. De igual modo, pinta optou por representar Eva a Adão, recordando que a mulher foi criada posteriormente ao Homem. 
No painel central encontramos o jardim das delícias terrenas, onde faz uma clara alusão ao pecado carnal. Os corpos continuam com uma luz muito branca, o que contrasta com o verde do jardim e os seres fantásticos e diabólicos que ajudam à propagação do pecado na terra. Entra-se num mundo surreal, onde não conseguimos identificar um animal, mas vários representados num só. Homens que se entregam ao prazer, lembrando a todo o observador que o que observam é pecado e que é punível aos olhos de Deus/Igreja. A mente humana que vagueia é que se deixa levar pelos vícios e pecados. 
Tudo isto nos leva ao inferno. A luz torna-se mais escura, a brancura dos corpos perde o brilho e a cidade incendeia-se. Temos a punição: o sofrimento no Inferno, que nos lembram os autos-da-fé, onde os infiéis e pecadores eram queimados pela Inquisição. 
Esta temática é repetida em vários quadros do pintor e de outros da sua época. Porém, Bosch tinha a sua assinatura na nudez e na presença destes seres fantásticos. 
Recordo que este senhor morreu em 1516. Por isso, falamos de um homem do século XVI que criou todos estes seres e satirizou io mundo profano e religioso. 
Ao deparar-me com quadros destes género consigo aperceber-se da genealidade, complexidade da mente de um pintor, considerado uma inspiração para a corrente do surrealismo (Salvador Dalí) do século XX.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Black Swan - O cisne negro

Olá Cambada,

Ontem fui ao cinema ver O Cisne Negro. Várias pessoas tinham-me aconselhado a ver este filme, e, uma vez que tinha sido nomeado para os Óscares em várias categorias decidi arriscar. Fiz bem. 
O filme é surpreendente e capta-nos a atenção desde o início até ao fim. Confesso que eu não sabia muito bem a história. Estava à espera de ver a luta de uma bailarina por um papel principal no bailado e uma série de intrigas que a impediriam de realizar o seu objectivo. Mas o enredo é muito mais do que isso. Trata-se antes de uma intriga interior, que a leva a não ter confiança total em si mesma. Uma das melhores frases do filme é: "A única pessoa que está no teu caminho és tu". Penso que esta seja a frase que resume o filme. Até que ponto é que temos confiança nas nossas capacidades? E o que fazemos para superar os nossos medos, os nossos próprios obstáculos? É uma luta interior que revela a loucura da personagem principal. Uma loucura causada pelo excesso de trabalho, a intensa preocupação em ser a melhor, em ser perfeita para conseguir chegar ao topo. É a constante corrida ao pódium, corrida ao poder, à perfeição que podem deturpar a nossa visão, podem transformar a nossa alma e a levar-nos a cometer loucuras e erros morais. 

Até que ponto se vai para ser o melhor de todos? Até onde estás disposto a ir para atingires a perfeição? Valerá a pena todo o sacríficio? Qual é o prémio final? Seremos reconhecidos pelo nosso esforço ou teremos apenas uns 15 minutos de fama? Todas estas questões que são levantadas ao longo do filme. 

A sonoridade, os planos de câmara, as personagens bem trabalhadas, e a excelente performance de Natalie Portman merecem uma ida ao cinema. Aceitem a minha sugestão e não se irão arrepender. 

Até breve, 

Sílvia

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Velhinha encontrada morta

Olá Cambada, 

Fiquei indignada com uma notícia que saiu há pouco tempo no nosso país sobre uma senhora idosa que foi encontrada morta no seu apartamento. Esta senhora estaria morta há nove anos. Nove anos! Não foram nove dias, nove semanas ou nove meses. são nove anos! Inicialmente, presumi que se tratasse de uma senhora isoda sem família, amigos, pois foi completamente esquecida. surpreendeu-me o facto de a senhora ter familiares. Estes, segundo as notícias, terão desconfiado do desaparecimento da senhora e recorreram a certas instituições para tentar desvendar o mistério do seu desaparecimento. Pelos vistos, estas instituições não foram de grande ajuda e os familiares aceitaram. Deixa no ar a ideia de que os familiares fizeram apenas aquilo a que lhes obrigava a consciência. Após uma única tentativa, cruzaram os braços e continuaram a sua vida normal. Que laços familiares existem hoje em dia para não se importarem com alguém da sua família? Eu teria arrombado a porta. Então, não pensaram que, sendo ela idosa, poderia ter falecido? 
Falta ainda mencionar a falta de conhecimento dos vizinhos. Nas grades cidades, andámos sempre numa correria imensa, sem termos interesse em travar amizade com o vizinho do lado. Falo por mim. Eu vivo num "cogumelo" onde existem 44 apartamentos. Não conheço quase ninguém e quase ninguém me conhece. Mal sei quem são os meus vizinhos da frente e do lado. 
É triste como a sociedade se tornou fria, insensível e extremamente egoísta. Todos pensam apenas no seu umbigo, não se importando com quem vive a seu lado. Não existe convívio, não existe inter-ajuda. É cada um por si e salve-se quem puder. 
Mas é exactamente aqui que me surge uma nova dúvida: durante nove amoos, a reforma da senhora não foi levantada, as contas do condomínio nao foram pagas, àguas, luz, gás, tudo iagual. Geralmente, quando faltam pagamentos, as coisas resolvem-se de maneira diferente, e realmente a casa foi leiloada (caso contrário talvez a senhora ainda estivesse falecida dentro do apartamento) mas a segurança social nada fez! E as pessoas do prédio? Apenas reportaram o desaparecimento da senhora em 2002, mas nºao acharam nada estranho. Ninguém terá ouvido o cão a ladrar? Esta senhora morreu numa imensa solidão, tendo apenas a companhia de um cachorrinho. 
É uma notícia triste, mas que revela a realidade dos nossos dias, especialmente nas grandes cidades. A realidade do egocentrismo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Complexo: um Universo Paralelo

Olá Cambada,

Há pouco tempo fui ao cinema ver este documentário sobre uma comunidade no Brasil: o Complexo do alemão, composto por várias favelas. Inicialmente, não gostei muito da ideia de ir ver um documentário sobre favelas. Não achava que me fosse mostrar mais do que eu já tinha visto no filme brasileiro: Tropa de Elite. Estava muito enganada! 
Para quem não viu o filme Tropa de Elite, trata a guerra que existe entre as comunidades e a Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais); o combate ao crime e ao tráfego de droga. Este filme mostra a triste realidade que existe nas favelas brasileiras e no sangue frio dos policiais que entram nas favelas com o intuito de apanhar os traficantes, não tendo limites para obter o que quer. No filme mostram mesmo algumas torturas que fazem para descobrir o paradeiro dos responsáveis pelo tráfego, matando a sangue frio muita gente. Assim, fiquei muito impressionada como se torna quase imprescindível matar a quem se oponha a ajudar a Bope. Quero acreditar que muitas vezes é uma questão de sobrevivência para esses policiais, pois há sempre tantas mortes de parte a parte que nos perguntamos se alguma vez terá fim a tragédia e se essa será a melhor solução. Porém, se não houver alguém a tentar controlar a criminalidade o clima das favelas poderia estender-se a várias cidades. 
Ao ver o filme Complexo: Universo Paralelo temos uma outra perspectiva do mundo das favelas. O filme mostra-nos a humanidade das favelas, quem ali vive, quem tem esperança, quem tenta não seguir o caminho do crime, quem se esforça por melhorar as condições das favelas e quem se entrega à vida da droga. 
É impressionante ver como quem vive lá encontra forças todos os dias para batalhar contra a realidade, a pobreza, as injustiças sociais. Mostram a vida de três pessoas: uma mãe trabalhadora que se recusa a pedir esmola e vai tentando encontrar sempre trabalho que lhe faça colocar comida em casa para os filhos; um senhor Seu Zé que luta pelas melhores condições das favelas (canalizações, recolha do lixo); um jovem que triunfou no mundo da música, tornando-se num exemplo em como não seguir a criminalidade! Porém, mostra também o lado dos traficantes que falam em como é duro não seguir aquela vida, tendo em conta as enormes dificuldades que passam nas favelas, e o mundo do tráfego é algo que lhes proporciona dinheiro fácil. É quase inevitável. 
Acaba por ser um filme forte, não pelas imagens que mostra, mas por nos apercebermos que, apesar de estarmos no século XXI, há muita gente que não dispõe dos mesmos direitos, seja por ter nascido onde nasceu, por azar da vida. Lembro-me de pensar que é sempre uma lotaria viver ali: a qualquer hora pode haver uma bala perdida que mata uma criança que regressa da escola, quando menos se espera o adolescente pega numa arma e mata um policial. 
Porém, apesar de toda a dificuldade, injustiça e pobreza é inspirador ver como pessoas como as retratadas no filme não perdem a esperança, a fé, o sorriso nos lábios, nem o orgulho de serem fruto daquele pedaço de terra. Faz-nos perceber que bem pior do que a triste realidade deles, é ser pobre de espírito como acontece com muito senhor engravatado neste nosso país. 
É realmente um universo paralelo, é uma constante batalha, é uma verdadeira lição de vida!

Escrevam, partilhem e leiam... para que a distância entre nós se torne mais curta!