quarta-feira, 16 de março de 2011

Jardim das Delícias do século XXI

Olá Cambada,

Após a descrição do quadro de Hieronymus Bosch, "O jardim das delícias", pus-me a reflectir sobre o progresso da nossa mentalidade e o modo em como interpretamos as coisas. No século XVI, a dita pintura terá causado uma grande polémica por todas as cenas obscenas retratadas: os prazeres carnais, animais fantásticos e diabólicos, o inferno na terra. 
Hoje, olhando para o mesmo quadro e tentando adaptá-lo à nossa realidade, talvez o que haja demais obsceno será a representação de Adão e Eva, num paraíso perfeito. Um episódio que conhecemos da Biblia, que tantos o refutam, outros duvidam e muitos o tomam como metáfora. A ciência mostrou-nos a incredibilidade de tais afirmações religiosas e pensar em seres puros, num mundo perfeito, calmo e paradisíaco, é simplesmente ilusório. Não existe sítio ou pessoas assim, e já se perdeu a ideia de que poderá existir um jardim do Éden em outra dimensão (excluindo as pessoas verdadeiramente crentes). 
Já o painel central não é tão chocante. Hoje basta olhar para uma esquina e vemos cenas que nos deixam  indignados. A sexualidade está tão banalizada que o prazer sexual já é visto como algo essencial ao ser humano. É certo que a Igreja Católica ainda hoje condena o prazer sexual, mas conhecem algum cristão que não o faça?! Nem os padres, quanto mais... E os seres fantásticos? Não os podemos comparar aos animais que nascem com deficiências, ou deformações genéticas? Quem já não viu fotos de animais completamente diabólicas? Ainda há dias saiu nas notícias que nasceu uma tartaruga com duas cabeças e cinco patas. 
O Inferno do terceiro e último painel descreve o nosso mundo actual. O incêndio que destrói a cidade é uma alegoria a todas as catástrofes naturais que temos sofrido ultimamente: incêndios, inundações, tsunamis, terramotos, como se a própria Terra estivesse a punir o Homem pecador. Os seres diabólicos personificam as atrocidades que o ser humano comete contra o próximo e contra si próprio. São imensas as notícias de pais que matam, violentam e torturam os filhos e vice-versa. O ser humano já não sabe distinguir o errado do correcto, o bem do mal e saem disparando contra tudo e contra todos, em todas as direcções, chamando a morte e a tragédia a cada esquina.
Estará assim tão desactualizado o quadro? A resposta será sempre não, se virmos sobre a perspectiva religiosa, mas deixemos de lado as nossa crenças. Tentem ler o quadro como se fosse uma interpretação do mundo actual...não encontram semelhanças? 
Para ser um pouco louca, quase poderia dizer que Bosch foi também um profeta ao representar a nudez e os seres deformados que vemos todos os dias passeando nas ruas deste nosso planeta. Os pecados quase viraram virtudes, e as virtudes existem apenas em quem ainda está no ventre da mãe. Pessimista? Sim, um pouco. O ser humano desilude-me a cada dia que passa.

Tenho dito.

terça-feira, 15 de março de 2011

O Jardim das delícias de Hieronymos Bosch

Olá Cambada,

Hoje venho falar-vos de um quadro que vi no Museu de Prado, em Madrid. Fiquei completamente fascinada pela composição deste tríptico. trata-se de um quadro dos inícios do século XVI e revela uma enorme criatividade e coragem de um pintor, ao pintar vários quadros abordando temas religiosos, mas representando seres fantásticos, a nudez humana e faz alusão aos prazeres carnais. são vários os quadros onde poderemos ver essa nudez: "as tentações de Santo antão"; "O Juízo Final", mas, na minha opinião, o melhor é este. 
O tríptico começa por apresentar a criação de Adão e Eva, pintando-os com uma brancura que reflecte a oureza do casal. Todo o jardim retrata o paraíso: a calmaria da natureza, beleza e a sempre presente tranquilidade. Porém, há vários pronúncios do pecado, que deixam adivinhar a composição seguinte. De facto, vemos alguns animais estranhos, a corugem (símbolo do infortúnio) e certas rochas que revelam perfis humanos. No entanto, mantem-se fiel ao teor religioso, representando a árvore do pecado original, onde se vê inclusivé uma serpente. De igual modo, pinta optou por representar Eva a Adão, recordando que a mulher foi criada posteriormente ao Homem. 
No painel central encontramos o jardim das delícias terrenas, onde faz uma clara alusão ao pecado carnal. Os corpos continuam com uma luz muito branca, o que contrasta com o verde do jardim e os seres fantásticos e diabólicos que ajudam à propagação do pecado na terra. Entra-se num mundo surreal, onde não conseguimos identificar um animal, mas vários representados num só. Homens que se entregam ao prazer, lembrando a todo o observador que o que observam é pecado e que é punível aos olhos de Deus/Igreja. A mente humana que vagueia é que se deixa levar pelos vícios e pecados. 
Tudo isto nos leva ao inferno. A luz torna-se mais escura, a brancura dos corpos perde o brilho e a cidade incendeia-se. Temos a punição: o sofrimento no Inferno, que nos lembram os autos-da-fé, onde os infiéis e pecadores eram queimados pela Inquisição. 
Esta temática é repetida em vários quadros do pintor e de outros da sua época. Porém, Bosch tinha a sua assinatura na nudez e na presença destes seres fantásticos. 
Recordo que este senhor morreu em 1516. Por isso, falamos de um homem do século XVI que criou todos estes seres e satirizou io mundo profano e religioso. 
Ao deparar-me com quadros destes género consigo aperceber-se da genealidade, complexidade da mente de um pintor, considerado uma inspiração para a corrente do surrealismo (Salvador Dalí) do século XX.

Escrevam, partilhem e leiam... para que a distância entre nós se torne mais curta!