Após a descrição do quadro de Hieronymus Bosch, "O jardim das delícias", pus-me a reflectir sobre o progresso da nossa mentalidade e o modo em como interpretamos as coisas. No século XVI, a dita pintura terá causado uma grande polémica por todas as cenas obscenas retratadas: os prazeres carnais, animais fantásticos e diabólicos, o inferno na terra.
Hoje, olhando para o mesmo quadro e tentando adaptá-lo à nossa realidade, talvez o que haja demais obsceno será a representação de Adão e Eva, num paraíso perfeito. Um episódio que conhecemos da Biblia, que tantos o refutam, outros duvidam e muitos o tomam como metáfora. A ciência mostrou-nos a incredibilidade de tais afirmações religiosas e pensar em seres puros, num mundo perfeito, calmo e paradisíaco, é simplesmente ilusório. Não existe sítio ou pessoas assim, e já se perdeu a ideia de que poderá existir um jardim do Éden em outra dimensão (excluindo as pessoas verdadeiramente crentes).
Já o painel central não é tão chocante. Hoje basta olhar para uma esquina e vemos cenas que nos deixam indignados. A sexualidade está tão banalizada que o prazer sexual já é visto como algo essencial ao ser humano. É certo que a Igreja Católica ainda hoje condena o prazer sexual, mas conhecem algum cristão que não o faça?! Nem os padres, quanto mais... E os seres fantásticos? Não os podemos comparar aos animais que nascem com deficiências, ou deformações genéticas? Quem já não viu fotos de animais completamente diabólicas? Ainda há dias saiu nas notícias que nasceu uma tartaruga com duas cabeças e cinco patas.
O Inferno do terceiro e último painel descreve o nosso mundo actual. O incêndio que destrói a cidade é uma alegoria a todas as catástrofes naturais que temos sofrido ultimamente: incêndios, inundações, tsunamis, terramotos, como se a própria Terra estivesse a punir o Homem pecador. Os seres diabólicos personificam as atrocidades que o ser humano comete contra o próximo e contra si próprio. São imensas as notícias de pais que matam, violentam e torturam os filhos e vice-versa. O ser humano já não sabe distinguir o errado do correcto, o bem do mal e saem disparando contra tudo e contra todos, em todas as direcções, chamando a morte e a tragédia a cada esquina.
Estará assim tão desactualizado o quadro? A resposta será sempre não, se virmos sobre a perspectiva religiosa, mas deixemos de lado as nossa crenças. Tentem ler o quadro como se fosse uma interpretação do mundo actual...não encontram semelhanças?
Para ser um pouco louca, quase poderia dizer que Bosch foi também um profeta ao representar a nudez e os seres deformados que vemos todos os dias passeando nas ruas deste nosso planeta. Os pecados quase viraram virtudes, e as virtudes existem apenas em quem ainda está no ventre da mãe. Pessimista? Sim, um pouco. O ser humano desilude-me a cada dia que passa.
Tenho dito.
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