domingo, 18 de novembro de 2012

Mulheres pioneiras no ensino superior


Olá Cambada,

Mais uma vez venho dar-vos alguma informação interessante. E, mais uma vez, na formação que fiz na Universidade de Coimbra: o papel das mulheres na Universidade. 

Em primeiro lugar devo dizer que enquanto escutava a palestra sobre a emancipação das mulheres no ensino superior, lembrei-me diversas vezes da Sónia Lopes. Pensava sempre, caso ela tivesse nascido no século XIX, ela teria tido o papel da Domitília. 

Algo que me impressionou sempre foi a maneira como a mulher é tratada no mundo islâmico, porém, é uma realidade que encontramos quando estudamos a história da humanidade. A mulher teve que lutar pelos seus direitos, pela igualdade de oportunidades, e neste caso específico o direito à instrução. Foi um tema que me fascinou imenso, pois, hoje em dia, é impensável alguém impedir a instrução a alguém, mas até aos anos 60, qualquer mulher que ousasse entrar no ensino superior era vista como uma calamidade, uma modernidade, algo absurdo. Pensar que já no século XVI, Públia Hortênsia de Castro teve de se mascarar de homem para frequentar a universidade (teoria de André de Resendo baseando-se em factos da vida da senhora e  conhecimentos que ela possuía), caso contrário nunca lhe teria sido permitido frequentar aulas. A instrução era algo que apenas ao sexo masculino pertencia. A mulher começou emancipar-se nos finais do século XIX, mas só a partir dos anos 60 é que o Mundo começou a aceitar de modo positivo o papel da mulher no mundo da política, do trabalho e do ensino. 

Antes de falar da grande pioneira no mundo da educação em Portugal analisemosestes números (referentes à Universidade de Coimbra):
  • Em 1878, 89% das mulheres eram analfabetas;
  • De 1892 até 1911: 20 mulheres frequentaram a universidade de Coimbra; 
  • 1910/1911 - 1ª mulher a frequentar o curso de Direito; 
  • 1924 - 1º decreto de lei que permite a ambos os sexos o uso de capa e batina, pois anteriormente, este era interdito às mulheres. Antes, utilizavam um traje preto, mas semelhante aos traje das enfermeiras militares da 1ªGuerra Mundial; 
  • De 1970-1988 - as matriculas feitas pelo sexo feminino aumentaram em 74,3% 
  • Foi no ano escolar 1983/84 que o número de mulheres superou o de homens, algo que se manteve a partir de 1988 até aos nossos dias. 
  • Em 2000, 60% dos matriculados eram mulheres. 
  • Em 1987, aparece o primeiro e único cartaz da Queima das Fitas com a figura de uma mulher, até aí tinham sido representadas as tricanas ou mulheres como sujeito passivo. 
  • Os cursos "predilectos" das mulheres eram letras e farmácia; hoje farmácia é composto maioritariamente por homens. 
E ainda antes de falar da Domitília, vejam só estas descrições que dizem respeito às mulheres: 

  • «Para a mulher o homem é apenas um meio: o objectivo é sempre um filho.» Nitchze (século XIX); 
  • «No mundo moderno a mulher representa um pouco o papel que no mundo pagão
    representaram os escravos, que no mundo feudal representaram os servos, que no mundo
    monárquico representaram os plebeus. É invencível o receio que ainda existe de a instruir e
    libertar moralmente» (Maria Amália Vaz de Carvalho - http://criticanarede.com/teses/lopespraca.pdf);
  • «Teme-se que as mulheres se tornem sabichonas ridículas, péssimas esposas, mães detestáveis, filhas delambidas e impossíveis» (Cristina Rocha - http://criticanarede.com/teses/lopespraca.pdf)
  Domitília Hormizinda Miranda de Carvalho foi a primeira mulher a matricular-se no ennsino superior. Antes dela, várias mulheres tinham pedido o exame de de farmácia. Caso tivessem experiência de oito oumais anos numa instituição privada, podiam requerer o exame e receber um diploma de qualificação. Porém, estas não frequentaram a Universidade. Esse era uma espaço reservado aos homens. Existe mesmo o nome depreciativo de "estudanta" que era a mulher que dividia o mesmo espaço com os estudantes, mas especialmente dividia o seu leito. Não eram estudantes no verdadeiro sentido da palavra. Muitas vezes também chamadas de "demoiselles", "espécie de ratas chatas", "uma calamidade". (Peço desculpa por não ter os autores destas citações. Estes são apontamentos da palestra que assisti e não consegui encontrar na net os seus autores). Havia um grande temor em enfrentar todas estas mentes fechadas que ainda consideravam que a função da mulher se resignava à educação dos filhos e a cuidar do lar.

Domítilia matriculou-se em 1891 formando-se em Matemática, Filosofia e em 1904 formou-se em Medecina. Teve uma grande importância na história do país: 

  1. Serviu de intermediária entre Salazar e a Rainha D. Amélia (Salazar permitiu que D. Amélia, última rainha portuguesa, pudesse fazer uma visita em 1945); 
  2. Foi uma das primeiras deputadas na Assembleia da República;
Apesar de na 1ª República a mulher estar a conquistar o seu lugar no mundo, foi um longo caminho para que o seu valor fosse equiparado ao dos homens (um caminho que em certos aspectos ainda estamos a percorrer). Só em 1918 sai um decreto de lei que permite às mulheres exercer advocacia: (nos EUA a mesma lei saiu em 1869, no Brasil em 1906, Em Inglaterra apenas em 1919).

De acordo com o código civil napoleónico de 1867, a mulher devia obediência ao marido; deveria acompanhá-lo a todo o lado, exceptuando ao estrangeiro; a casada deveria residir na casa do marido e este podia dispôr livremente dos seus bens. Contudo, não podia sem o seu consentimento hipotecar, adquirir e alienar bens ou contrair obrigações, publicar artigos e apresentar-se em juízo. (em, http://neh.no.sapo.pt/documentos/os_movimentos_femininos_em_portugal.htm) Este código prevaleceu até 1967, ano em que foi aprovado um novo código, onde se previa uma supeioridade e autoridade masculina.

Um outra mulher muito importante e por nós conhecida é a famosa Carolina Michaelis de Vasconcelas, que dizia ter nascido em «Berlim, a metrópole da inteligência». Ela foi a primeira docente na Universidade, primeiro em coimbra e depois pediu transferência para o Porto, para ensinar na universidade recentemente criada (1911). Já a primeira docente catedrática a leccionar numa universidade surge aoenas em 1954.

Interessante é também analisar como deixam a mulher entrar no mercado de trabalho: farmácia e ensino. O ensino sempre esteve relacionado com as mulheres, que eram vistas como as responsáveis pela educação dos filhos. Hoje quando pensamos nos nossos professores primários, geralmente lembramo-nos de mulheres, já em professores da secundária e da universidade, os homens são mais frequentes. Relativamente à farmácia, li em várias publicações e em sites da internet que muitas foram as mulheres que se dedicaram aos cursos de Medecina cirúrgica, pois também consideravam essa uma tarefa para a qual a mulher tinha um dom. A mulher teve que romper com o passado, agarrando as poucas oportunidades que foram dadas à mesma, e conseguiu vencer em várias àreas. Apesar de tudo, convém dizer que, na Universidade de Coimbra ainda não se elegeu uma Reitora. Desde 1290 até 2012, o cargo de reitor foi sempre ocupado pelo género masculino.

É uma questão fascinante, e pesquizando e analisando, temos assunto para duas ou três teses de doutoramento, mas apenas quero lançar a primeira palavra para um futuro debate. Para já deixo-vos com  dois excertos de um texto de uma publicação do jornal "Via Latina", de Coimbra, de 1961, intitulado "Carta a uma jovem portuguesa".

Um bem haja,
 



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Repúblicas

Olá Cambada,

 Já há muito tempo que ninguém escreve aqui no blog, mas hoje decidi escrever sobre algo que acho interessante. 
Hoje fiz um workshop em Coimbra, em que visitamos uma República. As famosas repúblicas de Coimbra. 

Para quem não se recorda, as repúblicas são as casas de estudantes da universidade com grande histórias, frequentadas por figuras públicas que na altura estudavam naquela cidade. Antes de contar a experiência de estar numa república vou dar-vos uma noção da importância e história das repúblicas. 

 As repúblicas foram criadas no século XIV, quando se mandam construir casas na ALmedina para albergar estudantes da Universidade que teriam que pagar um aluguer, cujo valor seria estabelecido por uma comissão nomeada pelo rei.

 Visitando Coimbra, vemos algumas repúblicas, cuja decoração revela logo ser casa de estudante: a decoração, um nome muito próprio, bandeira e sempre uma grande confusao. A designação de "República" surge apenas no século XIX e hoje os estudantes que vivem aí, são chamados de reppúblicos. Actualmente, existem apenas 20 Repúblicas em Coimbra, fundadas desdes os anos 40, em casas muito velhas, em más condições, mas que têm uma grande riqueza: a sua história. Várias foram as personalidades políticas, escritores, cantores, médicos que viveram em Repúblicas vivenciando três valores essenciais de uma República: a vida em comunidade, a soberania e a democraticidade. 

 Eis o que eu visitei e me foi contado pelos repúblicos: 

 * Um repúblico tem de conhecer a história da sua república e dos antigos proprietários; 

* Antes de serem considerados da "casa", são designados de "candidatos" ou seja, vivem lá em casa à experiência, como se fosse uma espécie de um estágio, e quando todos os repúblicos estiverem de acordo e se tiverem adaptado ao candidato, então poderão admiti-lo como repúblico. Isto pode demorar dois meses, seis meses ou um ano. 

* Todas as decisões são tomados em conjunto: tudo é discutido, tudo é feito por unanimidade. A nossa visita foi discutida previamente!

* Viver numa República é partilhar e viver em comunidade. Tudo é pensado em prol da casa, da "família". Há um hino, um grito, uma emblema e um lema. Nós visitamos a República Rás-te parta. O lema da casa é: "o arroto é livre e a rás-te-parta é eterna". O "arroto" neste caso é liberdade de expressão. Temos também de recordar que as repúblicas sempre tiveram um grande papel na oposição ao regime e nas mais variadas manifestações. 

* Se inicialmente as repúblicas eram a favor das praxes e incutiam todo o espírito de trajar, após a crise de 1969, a maior parte delas tornaram-se anti-praxes. A que nos visitamos tinha uma posição neutral, mas só desde 2008 é que autorizava que se trajasse em casa, contando-nos que muitos repúblicos tinham que se trajar na rua ou em outras casas.

* Eles levam muito a sério todas as regras. As refeições são horas sagradas: eles têm uma cozinheira que lhe faz as refeições. As 13h almoça-se às 20h janta-se. Tocam uma espécie de sino e sabe-se que é hora de vir para a mesa. E são importantes porquê? Porque é a única altura em que conseguem estar todos juntos e podem falar, discutir assuntos. Eles dizem que é a melhor altura para a "aprendizagem". Aprender coisas da vida, aprender aspectos sobre outros cursos, aprender....

* Toda a calinada que se dá, tem de ser escrita directamente nas paredes! É fantástico e muito cómico ler todas as calinadas ou frases engraçadas ditas ao longo dos tempos. * Cada república tem 10/11 estudantes: cada um tem um cargo, muitas vezes designado como o "ministro..." e têm o "mor" que é considerado o chefe, o representante da república no conselho das repúblicos. O mor geralmente é escolhido por antiguidade.

 * Associada às repúblicas existe uma celebração que é conhecida por "centenários", que na realidade é o aniversário da república. Eles dizem que um ano na república equivalem a 100 anos lá fora, ou seja, na «vizinha república portuguesa».

 * Até há pouco tempo, as republicas estavam sempre de portas abertas (literalmente) e quando alguém batia à porta, a resposta era sempre a mesma: "Para a próxima bate com os cornos". Hoje em dia, isso já não é possível, devido aos assaltos. Nós visitamos a terceira república mais antiga de Coimbra. Não nos deixaram tirar fotos, mas bem merecia...toda a decoração, pinturas nas paredes, a desarrumação arrumada... mas mais do que isso foi sentir o espírito daqueles jovens. Eles falavam como se pertencessem àquela casa! Estão preocupados em como a nova lei do arrendamente acabe com as repúblicas e que leve à destruição fisica da casa que visitamos que realmente é cheia de história. É triste ver uma tradição tão única, tão...rica, se perca com a crise! 

As histórias que nos contaram foram muitas. Caso tenham alguma questão ou querer saber mais alguma curiosidade podem fazer e talvez eu vos saiba responder. 

Espero que tenham gostado!!!

Um beijinho para todos!  

Escrevam, partilhem e leiam... para que a distância entre nós se torne mais curta!