Olá Cambada,
Mais uma vez venho dar-vos alguma informação interessante. E, mais uma vez, na formação que fiz na Universidade de Coimbra: o papel das mulheres na Universidade.
Em primeiro lugar devo dizer que enquanto escutava a palestra sobre a emancipação das mulheres no ensino superior, lembrei-me diversas vezes da Sónia Lopes. Pensava sempre, caso ela tivesse nascido no século XIX, ela teria tido o papel da Domitília.
Algo que me impressionou sempre foi a maneira como a mulher é tratada no mundo islâmico, porém, é uma realidade que encontramos quando estudamos a história da humanidade. A mulher teve que lutar pelos seus direitos, pela igualdade de oportunidades, e neste caso específico o direito à instrução. Foi um tema que me fascinou imenso, pois, hoje em dia, é impensável alguém impedir a instrução a alguém, mas até aos anos 60, qualquer mulher que ousasse entrar no ensino superior era vista como uma calamidade, uma modernidade, algo absurdo. Pensar que já no século XVI, Públia Hortênsia de Castro teve de se mascarar de homem para frequentar a universidade (teoria de André de Resendo baseando-se em factos da vida da senhora e conhecimentos que ela possuía), caso contrário nunca lhe teria sido permitido frequentar aulas. A instrução era algo que apenas ao sexo masculino pertencia. A mulher começou emancipar-se nos finais do século XIX, mas só a partir dos anos 60 é que o Mundo começou a aceitar de modo positivo o papel da mulher no mundo da política, do trabalho e do ensino.
Antes de falar da grande pioneira no mundo da educação em Portugal analisemosestes números (referentes à Universidade de Coimbra):
- Em 1878, 89% das mulheres eram analfabetas;
- De 1892 até 1911: 20 mulheres frequentaram a universidade de Coimbra;
- 1910/1911 - 1ª mulher a frequentar o curso de Direito;
- 1924 - 1º decreto de lei que permite a ambos os sexos o uso de capa e batina, pois anteriormente, este era interdito às mulheres. Antes, utilizavam um traje preto, mas semelhante aos traje das enfermeiras militares da 1ªGuerra Mundial;
- De 1970-1988 - as matriculas feitas pelo sexo feminino aumentaram em 74,3%
- Foi no ano escolar 1983/84 que o número de mulheres superou o de homens, algo que se manteve a partir de 1988 até aos nossos dias.
- Em 2000, 60% dos matriculados eram mulheres.
- Em 1987, aparece o primeiro e único cartaz da Queima das Fitas com a figura de uma mulher, até aí tinham sido representadas as tricanas ou mulheres como sujeito passivo.
- Os cursos "predilectos" das mulheres eram letras e farmácia; hoje farmácia é composto maioritariamente por homens.
- «Para a mulher o homem é apenas um meio: o objectivo é sempre um filho.» Nitchze (século XIX);
- «No mundo moderno a mulher representa um pouco o papel que no mundo pagão
representaram os escravos, que no mundo feudal representaram os servos, que no mundo
monárquico representaram os plebeus. É invencível o receio que ainda existe de a instruir e
libertar moralmente» (Maria Amália Vaz de Carvalho - http://criticanarede.com/teses/lopespraca.pdf); - «Teme-se que as mulheres se tornem sabichonas ridículas, péssimas esposas, mães detestáveis, filhas delambidas e impossíveis» (Cristina Rocha - http://criticanarede.com/teses/lopespraca.pdf)
Domítilia matriculou-se em 1891 formando-se em Matemática, Filosofia e em 1904 formou-se em Medecina. Teve uma grande importância na história do país:
- Serviu de intermediária entre Salazar e a Rainha D. Amélia (Salazar permitiu que D. Amélia, última rainha portuguesa, pudesse fazer uma visita em 1945);
- Foi uma das primeiras deputadas na Assembleia da República;
De acordo com o código civil napoleónico de 1867, a mulher devia obediência ao marido; deveria acompanhá-lo a todo o lado, exceptuando ao estrangeiro; a casada deveria residir na casa do marido e este podia dispôr livremente dos seus bens. Contudo, não podia sem o seu consentimento hipotecar, adquirir e alienar bens ou contrair obrigações, publicar artigos e apresentar-se em juízo. (em, http://neh.no.sapo.pt/documentos/os_movimentos_femininos_em_portugal.htm) Este código prevaleceu até 1967, ano em que foi aprovado um novo código, onde se previa uma supeioridade e autoridade masculina.
Um outra mulher muito importante e por nós conhecida é a famosa Carolina Michaelis de Vasconcelas, que dizia ter nascido em «Berlim, a metrópole da inteligência». Ela foi a primeira docente na Universidade, primeiro em coimbra e depois pediu transferência para o Porto, para ensinar na universidade recentemente criada (1911). Já a primeira docente catedrática a leccionar numa universidade surge aoenas em 1954.
Interessante é também analisar como deixam a mulher entrar no mercado de trabalho: farmácia e ensino. O ensino sempre esteve relacionado com as mulheres, que eram vistas como as responsáveis pela educação dos filhos. Hoje quando pensamos nos nossos professores primários, geralmente lembramo-nos de mulheres, já em professores da secundária e da universidade, os homens são mais frequentes. Relativamente à farmácia, li em várias publicações e em sites da internet que muitas foram as mulheres que se dedicaram aos cursos de Medecina cirúrgica, pois também consideravam essa uma tarefa para a qual a mulher tinha um dom. A mulher teve que romper com o passado, agarrando as poucas oportunidades que foram dadas à mesma, e conseguiu vencer em várias àreas. Apesar de tudo, convém dizer que, na Universidade de Coimbra ainda não se elegeu uma Reitora. Desde 1290 até 2012, o cargo de reitor foi sempre ocupado pelo género masculino.
É uma questão fascinante, e pesquizando e analisando, temos assunto para duas ou três teses de doutoramento, mas apenas quero lançar a primeira palavra para um futuro debate. Para já deixo-vos com dois excertos de um texto de uma publicação do jornal "Via Latina", de Coimbra, de 1961, intitulado "Carta a uma jovem portuguesa".
Um bem haja,
2 comentários:
Ola',
Não sabia os detalhes da emancipação da Mulher em Portugal. É interessante saber isso.
Infelizmente as mulheres nos países democráticas ainda têm um longo caminho a percorrer.
Quantos deputados, ministros, árbitras ou treinadoras de futebol ou CEO's existem? Nos países da OCDE as mulheres ainda recebem menos que os homens de forma geral, têm pouca representação em quadros gerais de empresas. Eventualmente vai diluir-se porque nos próximos 20 anos cerca de 60% de empresas terão uma enorme presenca de mulheres em cargos de chefia, pela simples racionalização de que o número de licenciados são do sexo masculino. Países como a Arábia Saudita é um crime uma mulher conduzir um carro e existem carruagens de metro para mulheres e outro para homens. Na Índia além da divisão social e de castas ainda existe um enraízado machismo.
A Noruega (aqui vamos nós falar dos países nórdicos) no início deste milénio passou uma lei com um prazo de 3-5 anos para ser aplicada em que exigia que qualquer empresa cotada em bolsa teria de ter no mínimo 42% de mulheres no "board of directors" e cargos de chefia. Isto causou uma revolução social enorme com certos cargos serem atribuídos não na base da competência mas com base no cumprimentos da lei.
A Noruega tem passado quase incólume pela crise que fustigou os mercados financeiros e existe uma teoria sociológica que sugere que provavelmente se deve à redução de testosterona introduzida pela lei. Advoga que homens estão mais dispostos a arriscar e a pensar no curto prazo, enquanto que as mulheres além de não arriscarem tanto, conseguem planear melhor a longo prazo.
Relativamente ao fato da Mulher ter prevalência em certos trabalho e cursos também se deve à teoria de evolução. Onde o sexo feminino evoluiu a tratar da horta, a cuidar e criar dos filhos, a resolver conflitos e os homens aperfeiçoaram técnicas de caça, noção espacial, pensamento abstrato, cálculo. Um dos motivos pelos quais os homens conseguem estar sozinhos e calados deve-se à nossa evolução histórica onde passavamos longos períodos isolados para trazer comida para a família. Regra geral o sexo feminino tem resultados mais altos em Inteligência Emocional e o homem costuma ter resultados mais altos em testes de QI (isto porque o teste de QI está a testar aptidões que foram aperfeiçoadas pelo homem).
Beijinhos,
Paulo
CorreçãoÇ "Eventualmente vai diluir-se porque nos próximos 20 anos cerca de 60% de empresas terão uma enorme presenca de mulheres em cargos de chefia, pela simples racionalização de que o número de licenciados são do sexo feminino."
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