sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Repúblicas

Olá Cambada,

 Já há muito tempo que ninguém escreve aqui no blog, mas hoje decidi escrever sobre algo que acho interessante. 
Hoje fiz um workshop em Coimbra, em que visitamos uma República. As famosas repúblicas de Coimbra. 

Para quem não se recorda, as repúblicas são as casas de estudantes da universidade com grande histórias, frequentadas por figuras públicas que na altura estudavam naquela cidade. Antes de contar a experiência de estar numa república vou dar-vos uma noção da importância e história das repúblicas. 

 As repúblicas foram criadas no século XIV, quando se mandam construir casas na ALmedina para albergar estudantes da Universidade que teriam que pagar um aluguer, cujo valor seria estabelecido por uma comissão nomeada pelo rei.

 Visitando Coimbra, vemos algumas repúblicas, cuja decoração revela logo ser casa de estudante: a decoração, um nome muito próprio, bandeira e sempre uma grande confusao. A designação de "República" surge apenas no século XIX e hoje os estudantes que vivem aí, são chamados de reppúblicos. Actualmente, existem apenas 20 Repúblicas em Coimbra, fundadas desdes os anos 40, em casas muito velhas, em más condições, mas que têm uma grande riqueza: a sua história. Várias foram as personalidades políticas, escritores, cantores, médicos que viveram em Repúblicas vivenciando três valores essenciais de uma República: a vida em comunidade, a soberania e a democraticidade. 

 Eis o que eu visitei e me foi contado pelos repúblicos: 

 * Um repúblico tem de conhecer a história da sua república e dos antigos proprietários; 

* Antes de serem considerados da "casa", são designados de "candidatos" ou seja, vivem lá em casa à experiência, como se fosse uma espécie de um estágio, e quando todos os repúblicos estiverem de acordo e se tiverem adaptado ao candidato, então poderão admiti-lo como repúblico. Isto pode demorar dois meses, seis meses ou um ano. 

* Todas as decisões são tomados em conjunto: tudo é discutido, tudo é feito por unanimidade. A nossa visita foi discutida previamente!

* Viver numa República é partilhar e viver em comunidade. Tudo é pensado em prol da casa, da "família". Há um hino, um grito, uma emblema e um lema. Nós visitamos a República Rás-te parta. O lema da casa é: "o arroto é livre e a rás-te-parta é eterna". O "arroto" neste caso é liberdade de expressão. Temos também de recordar que as repúblicas sempre tiveram um grande papel na oposição ao regime e nas mais variadas manifestações. 

* Se inicialmente as repúblicas eram a favor das praxes e incutiam todo o espírito de trajar, após a crise de 1969, a maior parte delas tornaram-se anti-praxes. A que nos visitamos tinha uma posição neutral, mas só desde 2008 é que autorizava que se trajasse em casa, contando-nos que muitos repúblicos tinham que se trajar na rua ou em outras casas.

* Eles levam muito a sério todas as regras. As refeições são horas sagradas: eles têm uma cozinheira que lhe faz as refeições. As 13h almoça-se às 20h janta-se. Tocam uma espécie de sino e sabe-se que é hora de vir para a mesa. E são importantes porquê? Porque é a única altura em que conseguem estar todos juntos e podem falar, discutir assuntos. Eles dizem que é a melhor altura para a "aprendizagem". Aprender coisas da vida, aprender aspectos sobre outros cursos, aprender....

* Toda a calinada que se dá, tem de ser escrita directamente nas paredes! É fantástico e muito cómico ler todas as calinadas ou frases engraçadas ditas ao longo dos tempos. * Cada república tem 10/11 estudantes: cada um tem um cargo, muitas vezes designado como o "ministro..." e têm o "mor" que é considerado o chefe, o representante da república no conselho das repúblicos. O mor geralmente é escolhido por antiguidade.

 * Associada às repúblicas existe uma celebração que é conhecida por "centenários", que na realidade é o aniversário da república. Eles dizem que um ano na república equivalem a 100 anos lá fora, ou seja, na «vizinha república portuguesa».

 * Até há pouco tempo, as republicas estavam sempre de portas abertas (literalmente) e quando alguém batia à porta, a resposta era sempre a mesma: "Para a próxima bate com os cornos". Hoje em dia, isso já não é possível, devido aos assaltos. Nós visitamos a terceira república mais antiga de Coimbra. Não nos deixaram tirar fotos, mas bem merecia...toda a decoração, pinturas nas paredes, a desarrumação arrumada... mas mais do que isso foi sentir o espírito daqueles jovens. Eles falavam como se pertencessem àquela casa! Estão preocupados em como a nova lei do arrendamente acabe com as repúblicas e que leve à destruição fisica da casa que visitamos que realmente é cheia de história. É triste ver uma tradição tão única, tão...rica, se perca com a crise! 

As histórias que nos contaram foram muitas. Caso tenham alguma questão ou querer saber mais alguma curiosidade podem fazer e talvez eu vos saiba responder. 

Espero que tenham gostado!!!

Um beijinho para todos!  

1 comentário:

Sonia disse...

ola prima...
muito interessante mesmo...
Eu nao passei por momentos a viver com outros estudantes porque nunca fui para a universidade, mas nunca pensei que nessas republicas funciona-se dessa maneira... pensei que funcina-se normalmente como se aluga uma casa com uns amigos...como está a minha irma com umas colegas onde tudo se gere normalmente.. mas depois do que tu escreveste, a conclusao que tiro é que o primeiro contacto com uma república é marcado pela ideia de comunidade. Estas casas são geridas pelos próprios estudantes residentes que, democraticamente, decidem as suas questões por unanimidade, com varias regras a ser compridas, e nem todos podem ser "republicos" e que dao muita importancia á convivencia com os outros, como por exemplo as horas das refeiçoes sao sagradas... e isso é de valor..cada vez mais as pessoas utilizam as novas tecnologias para comunicarem, e cada vez mais as conversas "face to face" estao em vias de extinçao, vejo isso cada vez mais nas novas gerações ...
obrigado por partilhares isso com toda a tua sabedoria... beijinhos..

Escrevam, partilhem e leiam... para que a distância entre nós se torne mais curta!