Viva,
Em primeiro lugar, quero agradecer a todos que respondem ao blog, especialmente 'a Silvia e 'a Sonia por manterem o blog com vida. Nos ultimos meses foram atribulados para mim aqui em Londres, com mudanca de casa e compra de mobilia e electrodomesticos e nao tive muito tempo para estar aqui a colocar ou a responder a posts.
Os alunos conseguiram incutir medo aos professores. O plano e' um sucesso!
Para mim essa e' a maior victoria dos estudantes. No meu tempo era precisamente o contrario. Os alunos e' que temiam os professores. Passou-se do 8 para 80. E nunca se olhou para os professores como tutores ou mentores.
Lembro-me perfeitamente da minha primeira repreensao fisica.
1 classe Mirandela
Estudo do dia era Matematica e ali estava eu com uns triangulos para pintar. Envolviam 3 ou 4 cores, mas de todas essas so me lembro que um deles era para ser pintado com castanho claro. Ora a avo' estela providenciou-me com uns marcadores que tinham entre outras cores um castanho escuro e um castanho claro.
E como via bem e completamente ciente das minhas capacidades visuais em distinguir um castanho escuro de um claro, comecei a pintar um triangulo com o claro.
Nisto passa a professora e repara que os meus triangulos estavam pintados de escuro. Vai dai espeta-me uma esquerda bem dada e pergunta-me se eu sabia distinguir um castanho escuro de um claro. Raios! O meu castanho claro era demasiado escuro e isso foi razao suficiente para sem contemplacoes levar logo a minha primeira estalada educativa.
2a classe Vilar do Pinheiro
Primeira aula, primeiro colega, primeira conversa, primeiros 15 minutos.
O meu parceiro pos-se a falar comigo e a dizer que podia jogar futebol na equipa dele ao intervalo. Vai dai pusemo-nos a conversar sobre futebol, (nao, ainda nao falavamos de mulheres), intervalos, etc... "Paulo e Joao venham aqui se faz favor."
La vou eu todo orgulhoso a pensar que ja iria ser chamado para fazer uns exercicios.
2 Reguadas 'a moda antiga.
Regua de madeira, 1 cm de espessura, cerca de 40 cm de comprimento e muita pressao exercida no acto.
Que raios!! Entao eu vinha de Mirandela, sou uma crianca e nao posso conversar no meu primeiro dia de escola. Esta fui a minha segunda repreensao fisiva educativa e a primeira de muitas usando o instrumento mais temido pelos alunos.
3a classe. Vilar do Pinheiro
Estudo do sistema disgestivo com ajuda da eterna da chapada.
EU NUNCA TIVE TANTO STRESS NA MINHA VIDA. Nem exames nacionais, nem exames de universidade, entrevistas de emprego, nada.
Quarta-feira de tarde, professor substituto (daqueles 'a moda antiga), sistema digestivo, escolha de alunos aleatoriamente.
Por cada passo errado uma estalada.
Por cada "hum, e....." uma estalada.
Por cada hesitacao uma estalada. Tao certo como 1 + 1 = 2.
Eu safei-me... Nem uma galheta, nem um sopro, nem vento. NADA!
Nao so tinha estudado o sistema digestivo, como o respiratorio e o sanguineo. NAO DEI HIPOTESE! O professor podia mudar de sistema e ai arriscava-me a compor uma sinfonia de estaladas.
O meu parceiro, errou 10. A cara dele ja' nao era vermelha. Ali havia qualquer coisa em cima do pescoco.
4a class. Porto
"Por cada erro cometido na redaccao levam uma reguada."
Nunca encontrei melhor forma de comecar uma redaccao. Pressao, stress, ansiedade, nervosismo tudo misturado num cocktail explosivo que so' alguns (poucos) se safam.
Com sorte (e simplesmente sorte) so falhei uma virgula e valeu um valente puxao de orelhas. O Ricardo (atras de mim) estava extremamente confiante. Era o ultimo aluno a ser corrigido e ja' tinha verificado a redaccao mais de 10 vezes e estava praticamente confiante de que hoje safar-se-ia sem uma reguada. (Reparem que a atencao das criancas, nao estava focada em aprender, ou melhorar, mas sim em nao levar punicao).
Esqueci-me de referir que o titulo da redaccao era: "O Lobo comeu o Bolo"
Titulo da redaccao do Ricardo: "O Bolo comeu o Lobo!"
Levou tantas galhetas (estaladas mas dadas com as costas das maos), que aquilo parecia um jogo do Bayern de Munique contra o Sporting. Eram tantas que ele nem teve tempo de pestanejar.
De referir igualmente que na 4a classe ja tinha perdido a conta 'as minhas estaladas e e reguadas educativas. E volto a frisar. Eram vistas por todos como reguadas educativas.
O aluno nem contava aos pais que tinha levado reguadas. Porque sabia que desse acto apenas viriam mais a seguir. "Papa o professor bateu-me" TRAZ "Agora bato-te eu, que e' para aprenderes a comportares-te na escola." Era o que eu chamo agora da sequela educativa.
E nem os ciganos reclamavam. Aquilo 'as vezes parecia um pelotao de fuzilamento, 90% dos alunos em fila indiana prestes a ser repreendidos 'a moda antiga.
E casos como este sucederam-se durante anos e anos. Sendo que 90% das vezes era culpa nossa. Mas a meio dos anos 90 a revolucao estava implantada. Apareceram os primeiros Che Guevaras, aqueles que eram precisos policias para os levar presos. Daqueles que destruiam carros, que batiam nos professores ou que atiravam sapatilhas Nike Air, tamanho 46 aos professores. Onde e' que o sistema falhou? E que sistema? O educativo? O social? Os 2?
Hoje o simples puxar de braco por parte de um professor e' razao para a familia ir 'a escola e tratar das coisas "'a moda antiga" (tal como os professores fizeram a eles na escola).
A minha geracao e a dos jovens dos anos 80 viveu a revolucao na escola. A revolucao onde se fazia boicote 'as aulas e se fechava as escolas. Onde se comecou a bater nos professores. Eles foram o Che Guevara.
Mas se eles foram os Ches? Quem foi o Salazar? O Salazar foi o sistema educativo antes do 25 de Abril.
A velha guarda era do tempo de salazar. "Do portao da escola para dentro MANDO EU." Faz a leis, julga e executa. Monarquia Absoluta. Sem tirar nem por. Eu quero, posso e mando.
Era repressao, medo, falta de criatividade, liberdade. Um dos cocktail explosivo sociais que levou inumeras vezes a revolucoes.
O que se passou?
Quais as causas?
Quais as consequencias e mais importante como e' que chegamos aqui?
Quem esta' certo? Professor? Aluno? Sistema educativo? E errado?
Bater pode ou deve ser usado como uma ferramenta de ensino?
Existem ensinos melhores?
Digam as vossas opinioes. Em breve tentarei dar resposta a estas mesmas questoes.
Um abraco e beijinhos,
Paulo Monteiro
1 comentário:
Olá Paulo,
Já tinha saudades dos teus posts. Ainda me ri bastante ao ler as tuas repreensões físicas. Como é que te podes lembrar de coisas com tanto pormenor...invejo essa tua memória.
Realmente, a realidade mostra-nos que está tudo ao contrário. Eu também me lembro de algumas reguadas, mas sobretudo dos puxões de orelhas e chapadas que os profs nos davam, especialmente a minha professora da primeira classe, em Vilar do Pinheiro. Apesar de eu achar que eles exageravam na dose, porque na realidade, muitas vezes nós estudávamos e tal, só para não apanharmos reguadas ou estaladas na aula, passámos de facto de 8 para 80.
O que é que falhou? Falhou muita coisa! Em primeiro lugar, faltam os valores em casa. Porque se o nosso pai soubesse que nós tinhamos levantado a VOZ a um professor, era pancada de meia noite, quanto mais falarmos de agressão?
Vejo muitas vezes, pais dizerem que não autorizam que ninguém bata nos seus filhos, fazem todas as vontades aos filhos e cedem-lhe em todas as birras. OS putos vão mal habituados para a escola, seguem o exemplo dos rufias para conseguirem aquilo que querem e dão-se episódios lamentáveis.
Aquele caso ridículo, da aluna que bateu na professora, porque esta lhe queria tirar o telemóvel, pois estava a falar no meio da aula, é um escândalo. O problema é que esse é apenas um caso.
Para além da falta de valores, os professores foram perdendo o respeito e todo o status que tinham perante a sociedade. Lembro-me perfeitamente de tratarem as professoras quase como rainhas. Hoje, ao invés, são tratadas como profissionais normais, sem autoridade nenhuma.
Não sei também como chegamos a este ponto, mas penso que seja uma falha a vários níveis: perda de valores, excesso de mimos e cedências às crianças, e o estado que que não defende os professores.
A Marlene é professora primária e já me contou vários casos que se passaram com ela, ao ponto de um puto de sete anos lhe ter batido. Após ter falado com a mãe, apercebeu-se de que a culpa toda estava no contexto social em que vivia em casa e que nada poderia fazer para mudar a situação, a não ser ela dar uma lição no miúdo. De pouco lhe valeu, porque ele continua a ser agressivo. Por enquanto, a Marlene ainda utiliza o sistema antigo, mas não obtém resultados.
Penso que seja uma questão muito delicada, um pouco complicada de ser desmestificada, mas que nos deixa um pouco apreensivos, e pensamos: e é este o futuro de Portugal? Porém, mostra um pouco a "anarquia" em que vivemos!
Mas não é só em Portugal. Há pouco tempo fiz grupos de estudantes italianos em que diziam asneiras com abundância à frente dos professores, e estes nem pestanejavam. Os putos não faziam mal a ninguém, porém os profs não os repreendiam. Aqui se vê a extrema falta de respeito aos professores. Eu considero-me uma pessoa asneirenta, mas nunca falei mal à frente de um professor, ou mesmo perante alguém mais velho. Se o fizesse por distração pedia imediatamente desculpas. Os tempos mudaram realmente. Cabe-nos a nós, como futuros pais, tentarmos mudar o rumo das coisas.
Fico à espera das tuas pesquizas porque gosto bastante de saber segundas e terceiras opiniões e de me manter actualizada.
Continua com os excelentes posts.
Beijinhos,
Sílvia
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